1998/2001 - Tivemos dias razoáveis, no entanto, a fome estava apenas começando a torturar a barriga de algumas vítimas em nosso município. Mas, devia piorar. Não havia sinal de chuva, nem previsão que viria. E a assistência emergencial, montada pelas autoridades, só era planejada.
A última que presenciamos torrou toda a nossa safra de arroz, feijão e milho. A seca, a estiagem, sempre traz horrores. Mas o pior é a infelicidade vivida pelos deserdados da sorte e de uma riqueza tão simples, que poderá ser promovida e não é: O alimento.
As mulheres caminhavam léguas com latas na cabeça, para matar a sede dos seus filhos, e cozinhar o seu feijão. Os sofrimentos eram constantes nas vidas dos que habitavam o campo. A área urbana também já vivenciava essas dificuldades, quando faltava água até mesmo para beber, e necessariamente alcançava a assistência governamental, com suas diversas formas paliativas de suprir o agravo.
É perceptível que desde o século atrasado, as grandes secas se repetem com distancias regulares de até mais de dez anos. Todavia, entre elas as pequenas secas fazem silenciosamente os seus estragos. Sabe-se ainda que as grandes secas têm duração de dois a três anos. Outro dado conhecido é que não falta água no Nordeste. O mínimo, segundo a ONU, é 2.000 metros cúbicos de água por habitante. Há um mar de água doce no subsolo nordestino, conforme afirmam pesquisadores. E há grande quantidade em açudes. O que falta é controlar a capacitação e distribuição da água.
É correto se dizer que a maneira de ver esse problema mudou, mas poucas vezes os governantes chegaram a enfrentá-lo. Em 1877, durantes a pior das estiagens da história nordestina, metade da população de Fortaleza, na época, em torno de 120.000 pessoas morreu em conseqüência da fome e das doenças trazidas pelos retirantes. O Imperador D. Pedro II, comovido, chorou com a notícia e prometeu vender “até a última jóia da coroa” para resolver o problema. Até, fez uma visita ao Nordeste em prol dessa realização. Nomeou uma comissão para tratar do assunto. Das recomendações dos peritos que incluíam da distribuição de terras à construção de ferrovias, a única que saiu do papel foi um pequeno açude. Essa regra vem sendo copiada pelos seus sucessores, até os dias de hoje.
Vale salientar que, distante de querer defender os nossos políticos, quero dizer, os políticos da nossa terra, asseguro ao leitor, são eles: uma telha de um grande telhado. E, só uma decisão generalizada resolveria o problema. Reafirmo não terem forças, porém têm obrigações e oportunidades de fazer negociações para realizações concretas.
No término do ano findo, sentíamos nas nossas matas a necessidade das águas, os nossos açudes apresentavam acentuado fendilhamento (rachaduras), e a tristeza transparecia no rosto de toda a população. Já sentíamos o medo do horror, que já era vivido por algumas pessoas, foi quando os céus derramaram sobre nós, a graça que desejávamos, e todos voltamos a sorrir e curtir a felicidade que as chuvas nos trazem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário